Redenção
- Rafael Telles

- 19 de abr.
- 2 min de leitura
Quando a queda é um caminho para a glória

Existe um momento na vida de muitos homens gays em que o prazer deixa de ser libertação e passa a ser fuga. Quando o corpo vira moeda, o desejo vira anestesia e a noite parece mais acolhedora do que qualquer manhã possível. É nesse território nebuloso, entre a carência e o excesso, que muitos homens aprendem a existir antes mesmo de aprenderem a se amar. Porque quando o mundo te nega afeto, você aprende a sobreviver com migalhas de intensidade. Mas toda queda carrega, em algum nível, uma pergunta silenciosa: até onde eu vou antes de me perder de vez?
É essa pergunta que Ruas da Glória tenta atravessar. A obra acompanha Gabriel, um professor que perde a avó, a única pessoa que o aceitou como era; e, nesse luto, foge para longe carregando, literalmente, as cinzas dela. No Rio, conhece Adriano: garoto de programa, magnético, porém opaco. E, a partir desse encontro, tudo desanda da forma mais bonita e mais destrutiva que pode acontecer com alguém que coloca no outro a razão da própria existência.
O título do filme vira uma metáfora, não fala só de um lugar, fala de um percurso. “Ruas” como caminhos, e “glória” como um estado a ser alcançado depois de tocar o fundo do poço. Ao longo da narrativa, o que vemos não é apenas autodestruição, mas um tipo de catarse. Existe algo quase ritualístico na forma como o protagonista se entrega ao excesso, como se precisasse atravessar o próprio limite para entender quem é. O sexo, as drogas, os encontros vazios… tudo parece funcionar como pequenas tentativas de preencher um buraco que nunca se satisfaz. E aí vem aquele momento brutal que muita gente conhece, mas poucos verbalizam: depois do gozo, o penhasco. E é nesse eco que a verdade começa a sussurrar.
No fim, o filme não oferece respostas fáceis, e talvez nem precise. Porque a tal “glória” não é um destino garantido, mas uma possibilidade. Ela nasce no instante em que alguém decide que não merece mais se reduzir ao que machuca, ao que esvazia. É um gesto íntimo, quase invisível, de reconstrução. E talvez seja isso que o filme nos deixa: a ideia de que, mesmo nas ruas mais escuras de nós mesmos, ainda existe um caminho possível de volta.
Direção: Felipe Sholl
Roteiro Felipe Sholl
Elenco: Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner




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