No caminho

Há encontros que acontecem quando a vida já se tornou muito diferente daquela que imaginávamos. A gente carrega segredos, vícios, ausências e a sensação de que, se alguém conhecer tudo isso, vai embora. Mas às vezes uma pessoa chega sem prometer solução nenhuma e desperta algo que parecia perdido: a vontade de cuidar, de confiar e de tentar de novo. O amor não apaga o passado, mas pode mudar o que fazemos com a vida que ainda temos.
É nessa encruzilhada que o filme No Caminho, disponível na HBO, cria um novo olhar sobre o tema gay. A obra tem como protagonista Veneno, um jovem gay que foge pelas estradas mexicanas trocando sexo e drogas por caronas. Ele cruza o caminho de Muñeco, um caminhoneiro afastado dos filhos e marcado pela dependência química. O que começa como um acordo de sobrevivência ganha intimidade, enquanto os motivos da fuga de Veneno e os perigos que o perseguem vão sendo revelados. A viagem aproxima os dois homens que não escolheram os rumos que a vida tomou.
Para além das cenas de sexo, a trama também recusa a ideia confortável de que um homem gay ocupa sempre o lugar de vítima: no mundo do tráfico, há quem transforme outros rapazes em propriedade e exerça poder pela violência. Veneno foi rejeitado pelo pai por ser afeminado; Muñeco conhece a dor de estar distante dos próprios filhos. Essas feridas não explicam o desejo entre eles, mas dão profundidade ao cuidado que surge. Um encontra a possibilidade de ser protegido apesar de quem ele é; o outro redescobre que ainda pode oferecer a alguém a presença que não conseguiu aos filhos.
À medida que a viagem avança, o que parecia apenas um encontro passageiro se transforma numa oportunidade de reconstrução para ambos. Veneno, acostumado ao abandono, encontra alguém disposto a enxergá-lo para além do corpo. Muñeco, perdido nos vícios, redescobre a importância de estar presente na vida de alguém. É nessa troca que No Caminho encontra o seu maior valor: dois homens que, mesmo carregando histórias tão dolorosas, conseguem despertar um no outro a vontade de viver. O amor não desfaz os erros nem impede a violência do mundo; mas pode devolver a alguém uma razão para não desistir da vida que ainda tem.





Comentários