Capítulo 5 – Aninffa
- Rafael Telles

- 13 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

O dia nasceu com sol, mais um. O clima estava diferente do que se espera para essa época do ano, talvez respondendo ao humor de Razeus. Afinal, ele de fato poderia influenciar o tempo. Mas esse dia parecia uma incógnita na odisseia de Razeus e Artano. Porém, só parecia. Logo cedo, tudo encontrou o seu caminho: Artano havia conseguido o ingresso para o evento. Ele não poupou esforços para que isso acontecesse, e mais uma vez compartilhariam juntos àquele dia.
Razeus recebeu a notícia com a empolgação de um menino diante do inevitável. Marcaram de se ver para almoçar. Dessa vez, foi Artano quem o encontrou. Mais uma vez o cheiro de verão. Mais uma vez, as ruas estavam em festa. Mais uma vez, limão e abacaxi. Mas dessa vez não havia a timidez pela noite anterior, pelo contrário, eles estavam conectados, como se um sentisse exatamente o que o outro sentia.
Após o almoço, caminharam juntos até a casa de Eron e Ellen, os amigos da primeira noite. Iriam todos ao evento promovido por uma mulher que, aos olhos do mundo, era uma estrela da música, mas que, para Razeus, era muito mais do que isso.
No trajeto, Artano comentava o quanto conhecia bem cada rua daquelas. Razeus adorava encontrar algum motivo bobo para elogiar o homem que tomava conta do seu coração. Chegaram ao prédio dos amigos e logo pegaram um carro de aplicativo que os deixaria no local da festa.
Aninffa era uma cantora, aparentemente uma humana comum. Mas Razeus já havia descoberto sua linhagem. Filha de Eros com uma ninfa da floresta, o que fazia dela neta de Afrodite. Isso explicava por que suas festas eram uma ode ao desejo e à sexualidade. Mas havia algo a mais.
Além de Cantora e sacerdotisa, era empresária. Um de seus negócios mais rentáveis, e perigosos, era uma bebida feita com néctar divino: doce, viciante, sagrado. Capaz de dissolver limites, máscaras e defesas. Humanos, deuses, semideuses, ninguém saía ileso ao primeiro gole.
Foi para esse lugar que Razeus havia levado Artano. E era por esses motivos que ele temia. Sabia que, naquele dia, toda essa história de amor não seria suficiente. Aquele ambiente tiraria muito mais deles.
Razeus tentou resistir. Pediu cerveja. Mas logo percebeu que era inútil: Eron, Ellen e Artano já estavam encantados. O néctar corria livre entre os corpos. E Razeus, vencido pela vontade de participar, se entregou.
O show ia começar. Canhões de fogo lançavam labaredas capazes de aquecer a metros de distância. E, entre as chamas, lá vem ela: Aninffa, com toda sua sensualidade e carisma. Parte de seu poder era a capacidade de sincronizar sua frequência vocal com os corpos daqueles que beberam do néctar. Ela os guiava com a precisão de um maestro. Milhares de almas pulsando como uma só carne, música e espírito entrelaçados. Era Dionisíaco, sim. Mas não era apenas festa. Era ritual.
Eron logo se perdeu de si. Inventou uma desculpa para partir, envergonhado diante da irmã. E, como nos dias anteriores, restaram apenas os dois: Razeus e Artano. Unidos, entregues, disponíveis.
Uma roda se abriu no meio da multidão, uma das várias que surgiam em diversos pontos, sob o comando de Aninffa. Do alto, eram mandalas, grafismos vivos, um recado silencioso aos deuses ancestrais. Mas ali, no chão, tudo o que se via eram corpos sedentos, vibrando por dentro e por fora. Razeus e Artano seguravam firme a mão um do outro.
Eis que Aninffa dá o sinal para que os círculos sejam desfeitos.
O caos toma conta. A felicidade transborda. O desejo evapora dos corpos. Razeus queria olhar no rosto do amado para confirmar se ele estava feliz. Nesse momento, um rapaz qualquer para em frente a Razeus. Eles se beijam. Razeus, que ainda segurava a mão de Artano, o puxa e o traz para o beijo também. Artano embarca no momento. Isso não os incomoda. De uma maneira estranha, os aproxima ainda mais, como se tirasse o peso de arcar com expectativas que um dia não seriam mais capazes de suprir.
Entre vários beijos que aconteceriam depois desse, um rapaz pergunta para Razeus e Artano o que eles eram. E Razeus responde:
- Ele é meu marido.
Artano não consegue conter a felicidade ao ouvir aquilo. As outras bocas e corpos não representavam nada, eram só distrações, jogos, diversões efêmeras que os dois semideuses concordaram em vivenciar.
O show chega ao fim. O néctar ainda corre em suas veias. Eles precisam voltar para casa, mas, nesse momento, milhares de pessoas tentam fazer a mesma coisa.
Começam a se movimentar para a saída. Artano sugere um lado, Razeus aposta no caminho oposto. Mas seguem a sugestão de Artano. Razeus estava certo.
- Você precisa confiar nos meus instintos - diz Razeus.
Depois de tentarem, em vão, um carro de aplicativo, acabam pagando uma pequena fortuna por um táxi comum que os deixaria em uma lanchonete próxima da casa de Artano. Precisavam recuperar um pouco da energia.
Para Razeus, aquele pareceu o melhor lanche da sua vida. E Artano ficava ainda mais feliz ao perceber que Razeus estava feliz em sua companhia.
Caminham até a casa de Artano. Era perto de onze horas da noite, e aquele dia não estaria completo sem que fundissem seus corpos mais uma vez.
Eles sabiam que nada, nunca mais, teria a mesma profundidade da primeira vez. Mas aquela noite seria ordinariamente especial; justamente por ter sido tudo o que eles mais sonhavam: uma noite de confirmação do que crescia dentro deles. A noite em que perceberam que podiam ser, um com o outro, exatamente quem eram em sua essência.
Mais uma vez um banho com cheiro de flores, mais um dia compartilhado terminava, mais uma vez, não passariam a noite juntos. Razeus viajaria no dia seguinte. Aquele era um momento de despedida. Eles não sabiam onde essa história iria parar. Mas haviam combinado de se encontrar na semana seguinte: no Carnaval oficial, no Rio de Janeiro.
Uma semana os separava. Pelo menos, era o que acreditavam.
Já no carro, a caminho de casa, Razeus recebe uma mensagem. Uma foto.
Era de Artano.
Seus óculos haviam ficado na mesa.
Aquilo não era mais que um esquecimento. Era destino criando seus caminhos.






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