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Capítulo 3 - Dança dos Corpos

Atualizado: 13 de jul. de 2025

O dia seguinte ao primeiro encontro era uma página em branco. O sol nasceu em silêncio, como se o mundo esperasse que Razeus e Artano escrevessem sua própria gênese. Cada passo se lançava no desconhecido, e a única certeza que Razeus e Artano tinham era que cada minuto daquele dia seria compartilhado.

Tinham combinado de almoçar juntos e, depois, iriam a um bloco de pré-carnaval onde um amigo de Razeus os aguardava. Artano, que conhecia aquele homem há menos de 24 horas, se deixava conduzir, à inteira disposição. Razeus, por sua vez, era movido por tudo o que era novo, misterioso; e Artano era exatamente isso.

A noite anterior deixara uma carga vibrante no coração de ambos, uma vitalidade desconhecida, uma ânsia pela vida. Alguma coisa tinha mudado neles, e o mundo, de repente, parecia mais pulsante, era como se cada célula do corpo desses dois homens estivesse sincronizada com o cetro do universo, recebendo uma energia genuinamente cósmica.

Razeus subiu a leve ladeira da rua de seu prédio em direção à avenida que era a artéria principal daquela cidade; caminhando dez minutos até o metrô. A partir dali bastavam duas estações e estaria próximo ao ponto de encontro. Em menos de 6 minutos desembarcava na estação mais bonita da linha verde. As ruas ferviam com pequenos blocos, grupos e caixas de som competindo entre si, músicas se atropelando, corpos já levemente embriagados, como se Dionísio presidisse o dia, sempre ele, o irmão mais velho. O céu era de um azul escandaloso, e a cidade explodia em vida e cores.

Mas havia algo estranho: o GPS falhava no celular de Razeus. A tecnologia se mostrava confusa, como se os deuses quisessem atrasar o reencontro. Razeus, confuso, acabou pegando um caminho mais longo. Indo contra o fluxo de pessoas; começava a se perguntar se estava no caminho certo. As ruas se embaralhavam como um labirinto, e, numa esquina, um homem fantasiado com chifres cruzou seu olhar. Um déjà-vu; ele lembrava um Minotauro nas ruas que não levavam a lugar nenhum. Seria isso um alerta ancestral?

Mas os dons de Razeus, recentemente despertos, tinham algo a dizer. Ele sentia o cheiro de Artano. Não um cheiro comum, mas um cheiro do verão. Das ondas quebrando numa praia vazia. Da felicidade de estar no lugar certo. Da proteção do lar. Ele ainda não sabia, mas poderia encontrar Artano em qualquer multidão apenas com esse instinto, seguindo esse cheiro.

E assim se fez: o reencontro aconteceu ignorando a tecnologia e seguindo a intuição.

Desta vez, Artano estava diferente. Se na noite anterior ele parecia esconder-se entre as sombras, hoje ele brilhava. Havia algo curado em seu olhar. Talvez esperança. Os olhos verde-mar estavam mais claros, mais vivos, sem vestígios de tempestades dessa vez. Razeus leu tudo isso à distância, antes mesmo do abraço acontecer, e quando os corpos se tocaram, a primeira coisa que ele disse foi:

- Cara, que cheiro de verão, você tem!

Artano sorriu.

Foram juntos até um restaurante próximo, era só atravessar a rua, e nesse curto trajeto Artano apontou para perto dali onde morava. Razeus já se imagina entrando por aquela mesma porta em breve.

Chegam no restaurante. Sentaram-se. Fizeram os pedidos. Razeus, prático, seguiu a sugestão de Artano: massa fresca na manteiga com um bife tipo paillard. Para beber, suco de abacaxi para ele, limão para Artano. Um ritual silencioso começava ali.

Durante o almoço conversaram sobre a vida, a noite anterior, pessoas, carnaval. O amigo de Razeus não respondia as mensagens, mas isso já não importava. O plano passou a ser apenas um: estar juntos. O almoço foi ótimo, mas a dia era de festa. Chamaram um carro de aplicativo e seguiram para o bloco. Ainda estavam um pouco tímidos, como se toda a intensidade e intimidade da noite anterior exigisse agora uma certa delicadeza nos gestos.

O carro chega, e os leva até o local desejado.

Era gente por todo lado.

Razeus propôs comprarem cerveja, e criaram um acordo: cada hora, um compraria para os dois. A primeira latinha foi aberta. A busca pelo amigo que deveria estar ali continuava, mas era vã. Os deuses estavam brincando, criando obstáculos para que o dia fosse apenas um pelo outro. Estariam a sós, mesmo cercados de pessoas.

O bloco em que estavam não empolgava. Por ser uma festa latina, Razeus estava ansioso por ouvir Benito — seu cantor favorito— mas não acontecia. Ao som da trilha sonora frustrada, aproveitou para apresentar tudo sobre o tal cantor a Artano. Falaram de música e diversos outros assuntos, a conversa entre eles acontecia de maneira natural e fluida. Brincavam de ser outras pessoas, com outros nomes e se conhecerem novamente, e mais uma vez, e mais uma, e em todos os multiversos possíveis a paixão instantânea era o resultado. E assim, entre palavras e risadas, caminharam pelas ruas, de bloco em bloco, como se estivessem sendo guiados por uma força invisível, e a cada esquina ficavam mais próximos da casa de Artano.

A química entre eles se intensificava a cada cerveja que bebiam. Razeus, atento, observava o outro ganhar leveza a cada gole.

- Sua melhor versão vem com três latinhas - disse Razeus, brincando, com o olhar de quem vê tudo.

Entre olhares e toques, Razeus começou a abrir os botões da camisa de Artano. Já havia explorado muito do interior daquele homem, agora queria conhecer a geografia daquele corpo.

Notou que Artano não tinha pelos no peito, o oposto do que ele secretamente desejava. Riu e deixou claro:

- Sem pelos, vai ter que compensar de outro jeito...

- Compensar com o quê? - pergunta Artano.

Razeus, com ar de desejo, pisou levemente no tênis do outro, indicando com precisão o ponto que queria explorar.

- Ah... se essa é a moeda - sussurra Artano, inclinando-se para cochichar no pé do ouvido de Razeus - então você vai ser muito bem recompensado.

Eles não podiam mais conter o desejo. As brincadeiras eram apenas uma maneira leve de traduzir as intenções sinceras de cada um. A conexão era real, intensa, primitiva. Depois de quatro horas caminhando, bebendo, dançado, voltaram ao ponto de partida: o lar de Artano.

O prédio, que outrora havia sido indicado, era uma construção antiga, e isso era uma virtude. A entrada parecia uma ponte suspensa. A recepção em mosaico preto e branco, em forma de colmeia, desenhava flores geométricas no chão. Tudo ali tinha um charme, e parecia combinar com aquele homem.

O elevador chega. Quinto andar. Apartamento 52.

Razeus logo percebeu: 5 + 2 = 7. O número da perfeição.

Artano abre a porta. Razeus entra e sente que sempre pertenceu àquele lugar. Serviu-se com um copo d’água como quem já é de casa e vai ao banheiro. Um perfume de flores reinava em todos os ambientes, era como um refúgio naquela selva de pedras. De volta à sala, um sofá verde de veludo macio, os aguarda como um trono para consagrar os novos reis do mundo. Seria ele o altar daquele ritual.

Era a primeira vez que estavam realmente a sós. Passaram-se menos de 24 horas desde o primeiro beijo, mas cada hora parecia ter o peso de uma semana inteira.

Eles se sentam em um dos cantos do sofá, sabendo exatamente por que estão ali. Desejam isso desde o primeiro olhar. Mas não têm pressa, esse é um momento diferente de tudo o que já viveram.

Prosseguem com calma, como quem abre um presente valioso. Aproveitam cada centímetro um do outro, observam cada detalhe. Degustam todos os sabores que seus corpos têm a oferecer.

O cheiro de verão que acompanha Artano a essa altura do dia já se mistura ao cheiro de suor. A pele salgada se torna alimento para o desejo. O beijo se intensifica, se aprofunda. A respiração deles começa a se fundir. Um respira o ar quente que sai do outro, como quem enche os pulmões com o ar mais puro que existe.

Nesse momento, nada mais importa.

Eles são autossuficientes.

Se o mundo acabasse, eles criariam seu próprio habitat.

Começam a se despir, sem pressa, um desnudando o outro com os olhos, mãos e lábios.

Razeus observa uma coloração única da pele de Artano — há nuances, manchas, tons diferentes como um mapa vivo impresso em carne. Um corpo com história. Um corpo que guarda segredos. Uma cicatriz o atravessa bem no centro do tórax, como se uma flecha ou bala tivesse rompido seu corpo. Poderia um homem ter sobrevivido a esse golpe? Certamente Artano não era um simples humano. Mas não era hora de pensar nisso. Naquele momento, a mente deveria estar totalmente no presente, no agora.

Razeus posiciona Artano no outro extremo do sofá, cercado de plantas tropicais, onde toda a luz necessária para alimentá-las vem de uma janela que ocupa completamente a parede da sala, e uma cortina quase transparente filtra os raios solares que invadem aquele ambiente na primeira metade do dia.

Os dois estão frente a frente, já completamente despidos. Razeus pega, então, os pés de Artano e os traz até seu rosto, como se fosse através deles, mergulhar no outro.

Eram pés grandes, largos, pés de quem nasceu para o mar, de quem precisa de agilidade nas profundezas do oceano. Eram lindos, também.

Razeus não se contém. Lambe. Beija. Cheira. Era a compensação que havia sido prometida horas antes.

Artano se contorce, não sabe controlar o que sente. Geme. O prazer vem de onde nunca havia nascido.

- Você faz coisas que ninguém nunca fez... - sussurra, ofegante.

- Toca em lugares que eu nem sabia que era possível sentir prazer.

Razeus sorri, sem tirar os olhos dele.

- Pena de todos eles... que nunca souberam aproveitar você como merece.

Nesse momento eles não são nem humanos, nem deuses, são apenas animais seguindo seus instintos, usando todos os sentidos para reconhecer o outro e alcançar o prazer por completo.

O instante da fusão total está próximo. É inevitável. Mas o ápice ali não seria apenas penetração dos corpos. Não era sobre isso. É sobre a entrega. Sobre a energia. Sobre a sincronia entre as almas e a carne.

Artano, mesmo que ainda não saiba, tem o poder ancestral do mar que fluí por seu corpo. Ele é capaz de manipular líquidos, até inconscientemente, e depois de tanto desejo contido, tanto toque, tanta espera, eles sentem que a explosão entre eles é só uma questão de tempo. Pouco tempo. Seus corpos já estão totalmente sincronizados.

É então, como a força de dois gêiseres, que os líquidos de ambos jorram ao mesmo tempo, simultaneamente.

Quente.

Abundante.

Sagrado.

Misturam-se ali, escorrendo entre os dedos, entre os corpos, entre os respiros.

Misturam-se como espumas brancas das correntezas de dois rios que nunca deveriam ter sido separados.

Misturam-se fundindo o DNA de dois semideuses que, ao se unirem, abrem os portais de uma nova era na Terra.

Eles não faziam ideia do que realmente acontecia naquele exato instante. Mas o Universo sabia.

O Caos renascia, o vazio primordial do qual todas as coisas surgiram. O universo havia sido reiniciado naquele exato instante.  

Mas pra eles, era só sobre estar ali, um com o outro. No centro do próprio desejo. No limite entre mito e realidade. Na dança sagrada dos corpos.

O momento era de perfeição, como Razeus previu ao olhar o número do apartamento. Ficam ali por um tempo, extasiados, até que o banho se fez necessário, juntos entram no chuveiro; mais uma vez o cheiro de flores se intensifica, a água quente devolve um pouco da energia que ambos gastaram, mas ela só seria totalmente recarregada após matarem a fome que sentiam, e dessa vez não era fome um do outro, precisavam se alimentar. Artano pediu comida japonesa — ambos gostavam de peixe cru, um alimento genuíno do mar.

Outro sinal claro sobre suas origens.

A comida não demora pra chegar e eles aproveitam aquele momento como mais um que merecia ser inteiramente vivido. Por quase 12 horas, eles mal se lembravam que existia celulares, e um mundo inteiro girando em outro ritmo. Mas era hora de se separarem mais uma vez.

Razeus desejava ficar. Artano queria que ele ficasse.

Mas a vida é feita de escolhas.

Escolheram, novamente, a privacidade para compreender tudo aquilo que aconteceu nas últimas 24 horas. Por volta de meia noite, Razeus se vai, mas com a promessa de que se veriam no dia seguinte.

O próximo dia seria novamente de festa, mas para essa celebração, um ingresso era necessário, e não seria fácil conseguir um, muito menos barato. Além disso, os planos de Razeus haviam sido totalmente modificados desde que conhecera Artano.

Para esse concorrido evento, Razeus havia planejado se despir completamente de sua humanidade; ser apenas corpo, desejo e impulso, em uma espécie de retiro de luxuria promovido por uma deusa que Razeus já havia reconhecido em suas pesquisas na busca de pessoas como ele.

Mas será que Artano, mesmo se conseguisse as credenciais para entrar na festa, estaria preparado para ver o outro lado de Razeus, principalmente após o consumo do néctar dos deuses? Será que a conexão entre eles seria forte o suficiente para passar pelo teste da deusa Aninfa?

O próximo dia traria a resposta.

Ou a destruição.


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