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Capítulo 6 - Até logo

O que parecia apenas um esquecimento banal se revelou como mais uma engrenagem do destino girando a favor de Razeus e Artano. Os óculos esquecidos não eram só um detalhe; eram o pretexto perfeito para mais um encontro... inesperado, era uma forma simbólica de dizer: olhe com atenção para essa relação. Esse seria um encontro mais breve do que os anteriores, mas suficientemente intenso para plantar a semente da expectativa pelo reencontro que viria.

Razeus percorreu novamente o caminho que, em tão pouco tempo, já se tornava familiar. A leve ladeira, duas estações de metrô, passos que já conheciam o trajeto de cor. Ao chegar, lá estavam aqueles olhos verde-claros esperando por ele na estação, com os óculos em mãos. O cheiro de verão sempre acolhia Razeus, como se o levasse de volta para sua origem.

O tempo, dessa vez, era um inimigo. Teriam apenas um almoço juntos antes que a rotina os reclamasse. Escolheram um restaurante em frente ao metrô, a poucos metros da casa de Artano, caminho que Razeus agora faria de olhos fechados.

Sentaram-se frente a frente. A luz daquela tarde caía sobre Artano de um jeito que parecia proposital, realçando o mar calmo que vivia em seus olhos naquele momento. Razeus não conteve o pensamento:

-Seus olhos estão mais lindos do que nos outros dias.

Artano sorriu, e em sua voz havia algo entre gratidão e espanto:

- Você, em tão pouco tempo, já disse coisas que me tocaram em lugares que eu nem sabia que podiam ser curados. Coisas simples, mas que parecem consertar feridas antigas.

Razeus apenas sorriu, contente por perceber que tudo entre eles fluía com uma leveza que era rara nos relacionamentos atuais. Conversaram sobre o que estavam vivendo, sobre a chance de aquilo virar um relacionamento de fato, mesmo sabendo que, quando aquele ciclo terminasse, cinco horas de estrada os separariam. Mas não era hora de temer a distância. Em quatro dias, estariam próximos novamente.

O almoço chegou rápido. Pedidos idênticos mais uma vez, mas os sucos permaneciam fiéis: limão para um, abacaxi para o outro. Aquele ritual silencioso, repetido a cada encontro, crescia em significado, era uma espécie de subtexto, um pequeno símbolo do que eles estavam construindo e da força que eles depositavam nessa história.

Dividiram uma sobremesa, como quem prolonga o tempo que já começa a escorrer pelos dedos. Razeus comentou que tudo aquilo lembrava um filme que havia visto: Weekend, a história de dois homens que se conhecem em uma balada, passam 48 horas inseparáveis e, então, precisam se despedir, puxados de volta pela rotina. - A diferença - disse ele, rindo com melancolia - é que, no filme, eles se despedem num ponto de ônibus. Nós… numa estação de metrô. Mas o resto… é quase igual.

O tempo, impiedoso, cobrou sua parte. Artano tinha uma reunião, e não podiam adiar a despedida. Levantaram-se, pagaram a conta e caminharam devagar, como se cada passo pudesse desacelerar o inevitável. Tocavam-se com suavidade, mãos que falavam mais do que qualquer palavra. Havia tristeza, sim. Mas também havia uma certeza: estavam apaixonados, e quando a paixão é recíproca, não há distância ou deuses que consigam impedir o reencontro.

Na estação, trocaram um último beijo antes da catraca. Razeus atravessou e olhou para trás, buscando nos olhos de Artano uma confirmação silenciosa de tudo o que tinham vivido. Encontrou. Ambos seguiram seus caminhos, mas carregando a mesma certeza: fariam o possível para que seus destinos, de alguma forma, caminhassem juntos.

A estação, aberta e alta, oferecia uma vista ampla da cidade. Razeus tirou uma foto de Artano, distante, caminhando em uma ponte que o levava de volta à sua casa. Enviou a foto para Artano. Era apenas um gesto, como se a foto quisesse dizer: estou sempre olhando para você.

E assim, por quatro dias seguidos, dois homens que nunca haviam se visto, mas sempre haviam se esperado, seguiram tecendo a história que a profecia já previa:


"Só quando o neto do Trovão se lançar, à carne do oceano, e em amor se enlaçar, a Terra ferida há de respirar, e no ventre do caos, voltar a sonhar."


Agora, o destino já sabia o que precisava fazer. Os próximos passos estavam escritos. Razeus e Artano eram apenas peças no tabuleiro dos deuses. E o que havia sido despertado entre eles… não poderia mais ser desfeito. Uma nova era estava prestes a nascer. E, se alguém prestasse atenção, poderia jurar que já era possível sentir uma vibração diferente. Gaia voltava a respirar e das profundezas do oceano o continente perdido começava se revelar.

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09 de jan.
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