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Capítulo 2 - Razeus: Raio de Zeus

Atualizado: 13 de jul. de 2025

"Quando a espuma branca do céu tocar a do mar, o sangue dos tempos há de acordar —trazendo dos Titãs a voz adormecida, e o sopro dos deuses, fonte da vida. Só quando o neto do Trovão se lançar, à carne do oceano, e em amor se enlaçar, a Terra ferida há de respirar, e no ventre do caos, voltar a sonhar. Então, o raio cairá onde nunca caiu, abrindo no oceano um rasgo sutil, e as águas se abrirão como véu rasgado, revelando o futuro no tempo passado. Das fossas antigas surgirá, enfim, o continente velado no destino sem fim —guardião da luz, saber e memória, última esperança de Gaia em sua história.”

A história de Razeus começa muito antes dele próprio; antes mesmo de sua mãe, Fátima, saber quem era.

Fátima não era exatamente humana, embora tivesse sido criada como uma. Foi encontrada ainda recém-nascida, sozinha às margens de um rio, envolta numa membrana delicada feita de algas, como um presente das profundezas. Um casal que vivia pelas redondezas a acolheu e lhe deu o nome de Fátima, “aquela que se separa”,  e ela era mesmo uma separada: dos pais, do mar, do céu e da origem divina que um dia se recordaria.

Na infância, Fátima tinha sonhos que ninguém conseguia explicar. Conchas que sussurravam segredos incompreensíveis, relâmpagos que guiavam para lugares distantes, deuses escondidos no vai-e-vem das ondas. Quando falava disso, diziam que era apenas imaginação fértil. Mas ela sabia, sentia no corpo que aquilo era mais do que criatividade; era memória.

À medida que crescia, Fátima começou a perceber: sua vida carregava algo ancestral. Trazia em si um legado que não compreendia, mas sabia que um dia precisaria passar adiante. Esse dia se aproximou quando, prestes a completar vinte e cinco anos, ela conheceu Carlos.

Carlos era um homem de poucas palavras e braços largos, um ferreiro respeitado que forjava machados com tamanha precisão que o metal parecia obedecer à sua vontade. Mas era apenas técnica e sensibilidade. Carlos era apenas um humano, mas dotado de uma bondade rara, fundamental para plantar a semente no ventre da deusa que traria a profecia à vida.

Do amor entre Fátima e Carlos nasceu um menino. E no instante em que o bebê veio ao mundo, um raio caiu sobre a terra, com um estrondo tão grande que ninguém soube dizer se ele chorou. Desse momento só se lembra do som. E do olhar encantado da criança, que após o barulho, com lágrimas nos olhos, sorriu.

Fátima, ainda suada do parto, olhou o filho e sussurrou um nome que não vinha da razão, mas das vozes que ecoavam em sua mente: Razeus. Raio de Zeus. Filho da terra, da água e do céu.

Desde pequeno, Razeus demonstrava traços incomuns. Tinha memórias do útero, lembranças do líquido quente, da pele da mãe por dentro, dos sons abafados. Era tímido, mas afetuoso. Curioso, mas calmo. Inteligente, e com uma conexão direta com a natureza. Os adultos o chamavam de “meigo demais”. Diziam que aquele jeito doce o estragaria como homem.

Ainda criança, recebeu a notícia de que não cresceria sozinho. Nasceu Julia, filha do mesmo pai e da mesma mãe. Uma irmã semideusa, como ele. Começava a se formar um novo Olimpo; mas numa terra que já não oferecia condições para deuses florescerem.

Era cedo para pensar no futuro. Na infância havia um problema maior; e muito mais humano.

Razeus percebia que gostava dos outros meninos de um jeito que não sabia nomear. Aos seis anos, já sentia curiosidade pelo corpo do melhor amigo, mas sabia, intuitivamente, que aquilo não era permitido. Ele só queria entender por que o que sentia parecia tão certo; e ao mesmo tempo, tão errado aos olhos dos outros.

Por anos guardou tudo. A sexualidade, os desejos, os medos. Viveu afogado em silêncios. Se esquivando dos olhares. Arriscando-se em encontros secretos. Representando uma versão de si que não era verdadeira; o mundo não estava pronto para quem ele era. E, no fundo, ele também não estava.

Por um tempo, calou seu desejo — e, junto com ele, as vozes em sua cabeça. Por um curto período, Razeus tentou ser apenas um rapaz normal. Literalmente normal: seguindo as normas que o mundo ditava, mesmo que isso jamais fosse natural para ele.

Mas durou pouco. A cada novo ciclo de vida, o mar o chamava com mais força.

Na época de buscar uma universidade, todas as opções que mais o atraíam tinham algo em comum: eram cercadas por água. Ele escolheu uma ilha para estudar. Longe de casa, mas mais perto de si.

Ali, naquela ilha, enquanto cursava Filosofia e Artes, Razeus começou a desmontar sua armadura. Experimentou o corpo, a liberdade, os sabores. Mergulhou em si mesmo. Não queria mais calar as vozes internas; queria ouvi-las e entendê-las, para argumentar com as vozes de fora quando elas ousassem calar quem ele era. Nunca mais seria apenas normal. Queria ser natural.

E nesse processo, conheceu Guillermo, o garoto que sorria com os olhos. Seu primeiro grande amor. Um raio caiu pela primeira vez no coração daquele meio sangue.

Não foi fácil, embora estivesse claro que era o caminho certo. As leis dos homens pareciam mais cruéis do que as dos deuses. Mas foi durante um Carnaval, como num ciclo destinado a se repetir, que aquelas duas almas finalmente se permitiram viver felizes. É como se Dionísio, esse deus que ama a liberdade, cuidasse de seu irmão mais novo de perto.

Guillermo e Razeus foram intensos.

- Vou te amar até os 80 anos -, dizia Razeus. Como se 80 anos fosse uma eternidade de onde ele os olhava, no auge da juventude.

Mas o romance não sobreviveu ao primeiro aniversário. Terminou dias antes de completar doze meses. Mas isso não significava que o amor havia morrido.

O fim se deu porque Razeus ainda não conseguia assumir totalmente sua natureza. Escondia-se em personagens. Desejava ser livre, mas temia as consequências. Quando Guillermo se foi porque já estava pronto pra viver livremente um amor, Razeus afundou. Precisou se quebrar para, enfim, se reconstruir.

Voltou para a casa dos pais, o lugar onde tudo começou. Ali, finalmente, reuniu a coragem que nunca lhe faltou, e se abriu. Revelou a verdade sobre sua sexualidade à família, e chorou tanto, que parecia carregar um oceano dentro de si. E não era só metáfora.

Para sua surpresa, ninguém se espantou. O segredo que ele carregava como fardo era, para todos, apenas parte de quem ele sempre foi.

E foi assim, mais leve, que a vida de fato começou. Quando completou 25 anos, algo despertou. Os sonhos voltaram. Agora vívidos. Coerentes. As imagens desconexas da infância começaram a fazer sentido. As conchas, os relâmpagos, os sussurros… tudo apontava para algo maior.

Ao alcançar a idade divina, Razeus teve acesso completo à herança da avó. Isso inclui a profecia.

Mergulhou na busca por conhecimento ancestral. Leu mitologia. Estudou as origens dos deuses, as linhagens ocultas. E, ao olhar no espelho, soube: seu nome era a primeira resposta.

Razeus.

Ninguém mais se chamava assim. Ninguém mais sentia o sangue vibrar em forma de raio. Ele era especial, e esse era o seu natural.

Os dons vieram aos poucos.

Primeiro, o olhar. Quando encarava alguém profundamente, o tempo parava. Não o tempo dos relógios; o tempo das emoções. Só restava a verdade entre ele e o outro.

Depois, o clima. Sabia quando ia chover. Quando um raio queria cair. E podia controlar isso se quisesse.

E então, a memória. Ao tocar alguém, acessava lembranças que não eram dele. Vidas passadas. Dores esquecidas. Alegrias ancestrais. E visões de futuros possíveis; alguns que ele desejava nunca ter visto.

Como o futuro de sua irmã.

Julia morreu aos 25 anos, justamente quando seus dons começavam a despertar. E com sua partida, algo se reconfigurou. Mesmo com toda dor, Razeus sentiu uma força nova emergir. Como se Julia o tivesse deixado um presente,  o dom que não teve tempo de desenvolver.

Agora, ele era dois em um. Como se o corpo dele fosse lar de duas almas. Como se, ao adormecer, ainda conversasse com a irmã,  seu oráculo silencioso.

A vida seguiu.

Outros amores vieram. Nenhum como Guillermo. Até que, aos 30 anos, um raio caiu pela segunda vez.

Mavi. Um homem doce, que parecia carregar horizontes inteiros no olhar. Mas o luto ainda morava em Razeus. E havia responsabilidades demais sobre seus ombros. A família precisava dele. Ele precisava de tempo. E o tempo, esse deus traiçoeiro, levou Mavi embora, deixando-o viver no mundo dos “e se”. Onde tudo é perfeito, porque nunca aconteceu.

Razeus passou a acreditar que não era feito para amar.

Mas como poderia, se sua profecia dependia desse amor?

Aceitou, então, que talvez fosse mais humano do que divino. Que mesmo com seus dons, com as visões, com a linhagem dos céus e do oceano…ele era só um homem tentando entender onde se encaixava.

Talvez houvesse outros netos de Zeus por aí. Talvez não.

Enquanto isso, mergulhava na vida comum. Festas. Trabalhos. Conversas banais. Como quem espera o inevitável.

Porque ele sabia. Sentia nas entranhas.

O raio ainda cairia uma terceira vez.

E da próxima vez, não só mudaria sua história —partiria o mundo ao meio, para que um novo pudesse nascer.



1 comentário

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Leandro Machado
21 de jun. de 2025
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Até o momento, meu capítulo favorito… Foi como se cada cena estivesse acontecendo dentro da minha mente… Estou muito curioso para saber como essa história vai se densenrolar!!! Sensacional!

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